A atitude de Marega foi única. O racismo no futebol português é comum

by | Fev 17, 2020 | Portugal

Foto: José Gageiro - Movephoto

Apesar de ter sido a primeira vez que um jogador saiu de campo depois de sido alvo de insultos racistas, há casos de vários jogadores que continuaram a jogar sob chuva de insultos.

“Já passei por vários campeonatos, como jogador e treinador e, sinceramente, no nosso país, não vejo que haja racismo ou insultos a jogadores de outras nacionalidades.” A frase foi proferida pelo atual treinador do FC Porto, Sérgio Conceição, em 2019. O contexto era um possível castigo ao FC Porto por racismo depois de o líder da claque dos Super Dragões ter, alegadamente, chamado “macaco” a um jogador negro que ia marcar um
penálti. A UEFA acabou por arquivar o caso.

O discurso mudou radicalmente este domingo, quando foi Marega o alvo dos insultos racistas, desta vez vindo das claques do Guimarães. “Quando acontece algo desse género, o jogo passa para segundo plano. Estamos completamente indignados. Sei bem da paixão que existe aqui em Guimarães pelo clube, mas sei que a maior parte dos adeptos não se revê naquilo que sucedeu com um pequeno grupo de adeptos a insultar o Marega desde o aquecimento. Nós somos uma família, independentemente da nacionalidade, altura, cor do cabelo, cor da pele. Somos humanos, merecemos respeito e o que se passou hoje aqui foi lamentável”, afirmou Sérgio Conceição em declarações à Sport TV, no final do jogo.

Mas estes não foram nem os primeiros casos de racismo no desporto em Portugal, nem os únicos que envolveram o FC Porto. Vários vídeos nas redes sociais mostram, em 2012, os adeptos encarnados a imitarem sons de símios quando Hulk passa pela linha lateral do Estádio da Luz. Já em 2018, o FC Porto acusou Fábio Coentrão de ter proferido insultos racistas dirigidos a Moussa Marega durante o encontro da meia-final da Taça da Liga entre os portistas e o Sporting.

O próprio Benfica não é alheio ao racismo. Também no campo do Guimarães, o então jogador das águias Nelson Semedo afirmou ter sido alvo de “insultos e comentários racistas” durante todo o jogo. O jovem acabou mesmo por devolver os insultos aos adeptos vimaranenses, para grande irritação do estádio e até alguns jogadores da equipa da “cidade berço”. 

Outra situação que envolveu as águias aconteceu no estádio do Rio Ave. Em 2017, o Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) condenou o clube a pagar 536 euros de multa pelos cânticos racistas proferidos pelos seus adeptos contra Renato Sanches.

Na altura o Rio Ave confessou “integralmente e sem reservas todos os factos que lhe são imputados”.

Também em 2017, o Sporting de Braga foi punido com um jogo à porta fechada e condenado ao pagamento de uma multa de 22.950 euros devido ao comportamento racista dos adeptos no triunfo forasteiro sobre o Desportivo das Aves (2-0), em 20 de agosto, para a terceira jornada da I Liga. O presidente António Salvador classificou a decisão do Conselho de Disciplina da FPF como “uma afronta” ao clube minhoto, que recorreu e foi ilibado em janeiro de 2018.

Mas os insultos não são limitados à primeira liga. O Leixões chegou mesmo a ter de fazer um jogo à porta fechada depois de ter sido condenado por comportamento racista dos seus adeptos, num jogo contra o Belenenses, em 2012.