Ativista saído da favela

by | Dez 10, 2020 | Mundo

Fotos: DR

O início dos setentas é um bad boy com noção da força da sua imagem, inspirando-se no vestuário black power que emana de ativistas e das correntes artísticas nos Estados Unidos, através da soul music ou do cinema blaxploitation.

Logo depois da glória em 1970 por terras mexicanas, Sérgio Mendes, músico brasileiro com carreira nos Estados Unidos, apresenta-lhe essa terra alternativa e assombrosa, rebelde e insubmissa, e oferece-lhe uma curta-metragem imediata, em passeio de limousine — com Jairzinho dentro do mesmo filme —, ao som de James Brown pelos bairros negros de Los Angeles. Paulo Cézar vidra e vibra na hora, perdido em lojas, magnetizado com a chuva de cores e desfile de padrões. Regressa e faz-se rosto no Brasil desse grito estético e reivindicativo, de protesto pelo direitos civis, associado aos valores dos Panteras Negras. Ganha a alcunha de Caju ao mandar vir de Itália um Fiat de cor semelhante à descoloração do seu cabelo. Descola de tudo o resto como um fenómeno de marketing. Um momento de afirmação na sociedade, antes de um de perdição.

Paulo Cézar gozou a toda a velocidade momentos que se fizeram únicos e reveladores. Da mesma forma livre , convicta e destemida que abraçou sem hesitação o black power e formou a sua identidade, o antigo atacante também se deixou influenciar pela visão aceleradora do prazer, contrariando os princípios da carreira e os conselhos do pai, que sempre o afastou pelo dom da palavra de tentações problemáticas. Uma descarga da pressão e uma viragem da vida caótica. Se Keith Richards garante ter cheirado as cinzas do pai, Caju confessa metaforicamente que cheirou a medalha de campeão do mundo.

«Quando parei de jogar era muita festa. Enquanto jogava nunca fui de beber, muito menos fumar. Saía muito mas apenas por mulheres. Mas ao parar deparei-me com festas em St.Tropez, Ibiza, Mykonos. Tinha muitos amigos no futebol, no desporto, em geral, e também na música. Envolvi-me, é certo. E gostei!. Mas foram 17 anos duríssimos! Viciado em álcool e cocaína, uma droga excitante mas mortal. Deixa-nos lisos, era muito fácil consumir em pouco tempo 50 ou 100 gramas. Porque tinha muito dinheiro. Perdi duas casas. E como nunca fui de guardar medalhas ou troféus como recordação, e, como era viciado e precisava de dinheiro para a quantidade de cocaína que consumia, não tive que pedir autorização a ninguém. A medalha e a réplica da taça de campeão do mundo pertenciam-me. Não as perdi. Cheirei a medalha e essa taça!», reassume, descomplexado e resolvido com o passado. «Tive de parar em 2000. Encontrei a minha mulher, que me disse ‘não quero alcoólatra nem drogado do meu lado’. Deixei tudo e deixei o Rio, vendi a casa de Búzios para poder morar em São Paulo. Para não perder a minha mulher saí do Rio. Sem problema, sou cigano, morei no mundo inteiro.»

Meu amigo Bob Marley

Jogando e enamorando, ágil e versátil no campo, Paulo Cézar Caju encaixou fácil e graciosamente no meio dos artistas e absorveu sempre
com estima esse Brasil tão tropical e musical. O jogador passou os setentas a relacionar-se com a cultura e a boémia, em permanente proximidade com os mais ilustres da tropicália e da bossa nova. A garra de vencer, a sede de conhecer e a prontidão de agir por direitos básicos fizeram dele um cúmplice de várias lutas travadas, afiando a sua voz contra a censura e o racismo.

Politizado como os músicos. Sem mordaças. Nunca politicamente correto. Admirado no Brasil e fulminante a quebrar fronteiras pelas ideias. A prova maior chegou de Bob Marley, chamado a visitar o Brasil pela primeira e única vez em março de 1980. O jamaicano, profeta do reggae, colecionador de sucessos agarrados à mente, ao corpo e ao espírito de meio mundo, trouxe a sua vibração ao Rio com duas exigências: conhecer Paulo Cézar Caju e fazer uma pelada com músicos. O desejo concretizou-se no campo Polytheama, pertencente ao doce e sublime Chico Buarque, na Barra da Tijuca. Ao chegar ao Brasil, Bob Marley entregou-se de paixão, dizendo à imprensa que o samba e o reggae são a mesma coisa, comungam do sentimento de raízes africanas. E não deixou fugir a oportunidade de se render ao desporto rei, testando os seus dotes com a camisola do Santos.

«Bob Marley vinha como convidado da festa da gravadora Ariola. Ligou-me um repórter a dizer que ele tinha aterrado no Rio e tinha pedido para conhecer-me. Via-me como um ídolo da seleção brasileira. Estava hospedado no Copacabana Palace e foi aí que eu cheguei na companhia
da Nathalie Delon, ex-mulher do Alain Delon. Eu e o Bob ficamos logo amigos e apareci na festa onde ele atuou no morro da Urca e Pão do Açúcar, onde se faziam grandes noites cariocas. Mas também se fez um jogo. Estava eu, o Bob Marley e mais alguns músicos dos Wailers, o Chico Buarque e o Toquinho na mesma equipa. A vitória foi nossa por 3-0, um golo meu, outro do Chico e numa tabela com o Chico, eu faço o passe para o Marley fazer o seu golo. Foi uma grande experiência e um contacto maravilhoso. Ele era fã do futebol brasileiro. Da nossa conversa ficou
prometida uma palestra minha na Jamaica em Kingston sobre o sucesso de um jogador saído da favela.

Ele admirava as minhas posições e as minhas brigas. Seria no ano seguinte, mas ele morreu em 1981. Foi uma perda dura, era um ser humano
espetacular», recorda a saudade de um dos seus artistas de predileção. Já no Brasil a música é todo um jardim encantado e regado pela doçura de um estilo, de uma geração. É o Rio, ao som da Bossa, do swing’, o país do futebol e uma casa de todos: O Maracanã. «Nem dá para enumerar, desde Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Chico Buarque, Jamelão, Mangueira, João Nogueira, Noca da Portela e os grandes como Jorge Ben e Wilson Simonal, fãs de futebol, como a Elis. O Simonal era muito próximo, acompanhou-nos no Mundial do México. Mas nesses setentas os músicos passavam a vida em jogos no Maracanã. São pessoas do Rio que amam o Rio. O Chico diz que é do Rio mas é paulista! Temos grandes músicos mas isso é graças a Portugal, a língua é muito bonita.» Paulo Cézar Caju escolhe Mais que Nada, do álbum ‘Samba Esquema Novo’ de Jorge Ben, como música de cabeceira: «Cantava todas as músicas, ele é especial porque é o compositor de todas.».

A infância difícil até ser adotado por Marinho Rodrigues, treinador de Garrincha no Botafogo da afirmação precoce que começa na Colômbia e o Mundial ganho em 1970, era o caçula da seleção

PAULO CÉZAR LIMA, mais conhecido como Paulo Cézar Caju, campeão do mundo pela canarinha em 1970, realizando quatro jogos nessa campanha. Mais que um jogador, um ativista, ferrenho das causas. Irresistível escritor de golos, sublime armador de jogo nas palavras, cantor de intervenção cívica nas arrancadas furiosas. Mesmo saído da favela, Paulo Cézar é, na época, a cara da ascensão social, goza dela, arma-se com roupas e carros, seduz mulheres e ostenta tudo o que pode. Orgulhosamente, um negro de bom gosto. O Brasil cola na sua imagem, a carreira no Botafogo, no Flamengo e na seleção também o leva à Europa, ao Marselha. «Eu nasci numa favela dentro bairro de Botafogo, Cachoeira, num
período muito rico e bonito do Rio, sem traficante e sem bandido. Era pobre com uma vida decente, uma mãe doméstica que trabalhava duramente,
fazia os sacrifícios todos. Veio da cidade de Minas Gerais, de Três Corações, de onde é o Pelé. Veio escrava para o Rio, por sorte não vi isso.

Mas essa história dá-me coragem. Morávamos numa rua com casas de tijolo e madeira, na mesma cama dormia eu, minha mãe e minha
irmã. A comida era saudável, havia sempre feijão e quiabos. Eu já fazia as minhas bolas, primeiro com meias de lingerie. Depois, como não tinha dinheiro, pegava em jornais e saia driblando em paralelepípedo. Percebi que tinha um dom, era uma força mais que tinha. Contava com
isso para triunfar!» Da favela para o berço da família Rodrigues, o futebol ganha força enquanto filho adotivo de Marinho Rodrigues, treinador
do Botafogo de Garrincha. A mãe assina a adoção e é Marinho quem o leva para as Honduras. Tem 12 anos. E Colômbia. Aos 16 anos já
joga pelo Júnior Barranquilla. Caju voltaria ao Brasil com 17 anos. E logo se fez craque. «No primeiro teste faço três golos, no segundo mais três golos. Não teve jeito! Estava ali ao lado de todos os craques pela minha força espontânea.

Com Gerson e Zagallo. Logo decidiram ficar comigo na primeira equipa. Estreio-me com o América em 1967 perante 92 mil pessoas no
Maracanã. O Botafogo ganha 3-2 e faço os três golos. Era a final da Taça Guanabara. A minha carreira no Brasil começa assim», relata Paulo Cézar Caju, campeão do mundo com 20 anos. Com Pelé, Jairzinho, Rivelino, Tostão, Gerson ou Carlos Alberto, uma autêntica farra, sem rédeas nem
inibições, numa dança pelo campo só ao alcance de predestinados. Abençoada arte de atacar. Paulo Cézar era suplente, chamado 12.º jogador, dessa seleção memorável comandada por Zagallo. «É um Campeonato fantástico, o nível da seleção é incrível e o nível dos adversários nesse mundial, também era fabuloso, desde a Inglaterra, Itália, Checoslováquia, Alemanha, Uruguai, Perú. O Brasil de 58 pode ter sido mais forte que o de 70 mas a competição, no seu todo, foi muito mais espetacular em 1970», aclara Paulo Cézar, que também recorda com nostalgia um jogo amigável contra o Benfica. «Faço vénia a essa equipa. Ganharam-nos. Era o Benfica do senhor Eusébio e do senhor Coluna.»

Garrincha era cinema mudo

Paulo Cézar Caju foi um menino privilegiado, enriquecido por ver treinar Garrincha, quando o seu pai adotivo treinava esse Botafogo. «Garrincha era muito alegre. Todas as quartas-feiras escondia-me no carro do Marinho para ver essa sessão. Garrincha nos treinos era puro divertimento… Ele brincava, os dribles que ele fazia era um dom, ele não queria abusar de ninguém, era só a maneira dele de jogar », recorda Paulo Cézar Caju, seduzindo com as memórias da época. «Vi vários treinos do Botafogo e era algo incrível, a gente desesperava enquanto ele não entrava em cena. E havia jogos em que o Garrincha demorava a pegar na bola, os adeptos, fossem quais fossem, podiam ser do maior rival, ficavam impacientes…

Quando a bola chegava no Garrincha, o Maracanã inteiro se levantava. Garrincha era o Charlie Chaplin do futebol, ele era o cinema mudo, não abria a boca e divertia o mundo inteiro.» «Meu pai conseguiu domar todos eles. Tinha sido jogador, sabia todas as manhas. Era um treinador e era como um pai nesse Botafogo. Era muito querido, muito amigo e muito parceiro. Preocupava-se com os problemas particulares. O meu pai, o Didi e o Nilton Santos tinham todos muito cuidado com Garrincha, porque ele era um passarinho que voava», brinca, recuperando o nome do pássaro,
transportado para um nome sagrado do futebol, que enfeitiçava o humilde craque de 1958 e 1962 em Pau Grande.