Mário Wilson e Juca, de rivais a amigos inseparáveis

by | Jan 20, 2021 | Black LIves Matter in Football

Carlos Graça. Acervo SLB
Mário Wilson, anos 70
Roland Oliveira. Acervo SLB

O desporto tem o condão de quebrar barreiras e unir pessoas, independentemente das suas diferenças. O simples facto de torcerem pela mesma equipa pode servir de desbloqueador de conversa, e levar até a comemorar um golo com um abraço a um desconhecido. A paixão em comum serve de elo de ligação!

Nascido a 17 de outubro de 1929, em Lourenço Marques, atualmente Maputo, Mário Wilson deixou-se encantar pelo desporto desde muito cedo, praticando várias modalidades: futebol, basquetebol e atletismo. Para além de todas as virtudes inerentes à prática desportiva, havia algo que o seduzia especialmente, o facto de, em campo ou numa corrida, todos os participantes partirem em igualdade de circunstância, dependendo apenas de si próprios para terem sucesso. Vivendo numa sociedade desigual, este ponto adquiria maior importância, tornando-se quase vital: “nós, os de cor, nunca deixávamos escapar uma hipótese de tentarmos impor-nos aos brancos e eram tão poucas essas hipóteses, elas quase que só existiam no Desporto e era, portanto, no campo desportivo que nós dávamos tudo para sermos superiores aos brancos”[1].

O ingresso no clube do coração e o reencontro de um antigo rival

Das modalidades que praticava, foi no futebol que fez carreira. Como jogador, representou o Desportivo de Lourenço Marques, o Sporting e a Académica de Coimbra. E, em 1964, iniciou o percurso como treinador de futebol ao serviço da “briosa”. Após os estudantes, orientou o Belenenses, Tirsense e Vitória de Guimarães. Os bons resultados obtidos nessas equipas potenciaram-no para o patamar que sempre almejou: ingressar no Benfica. O clube do seu coração!

Mário Wilson durante o jogo da 33.ª jornada do Campeonato Nacional 1995/96 com o União de Leiria, 05-05-1996 António Reis. Acervo SLB

A 30 de maio de 1975, foi oficialmente apresentado como novo técnico dos “encarnados”. Com um bom arranque de época, à entrada para a 14.ª jornada os “encarnados” lideravam o Campeonato Nacional, com os mesmos pontos de Boavista e Sporting. Os benfiquistas recebiam os “leões”, sendo esse o jogo que despertava maior interesse. Para além da igualdade pontual, as duas equipas tinham outra semelhança: ambas eram orientadas por treinadores nascidos em Moçambique. Mário Wilson e Juca tinham um longo histórico de confrontos, e recordaram-nos na antevisão da partida.

Mário Wilson e Preud’homme festejam a conquista da Taça de Portugal, 18-05-1996 António Reis. Acervo SLB

De quase inimigos a companheiros

A rivalidade remontava aos tempos de escola, altura em que o treinador “encarnado” estava no Liceu e o treinador leonino na Escola Técnica. “Em Lourenço Marques, o Juca e eu fomos acérrimos rivais, e, até, pouco menos do que «inimigos»! A coisa vinha de longe e tinha raízes muito fundas. […] ele branco, eu mulato”[2]. A competição entre ambos passou para o futebol federado, Mário Wilson ao serviço do Desportivo e Juca a alinhar pelo Sporting de Lourenço Marques. Havia diferenças assinaláveis entre os dois conjuntos: “o Desportivo era um clube popular, enquanto o Sporting formava pequenas elites – e houve mesmo um período em que, no Sporting, não eram admitidos jogadores de cor…”[3]

Após vários anos em lados opostos da barricada, o Sporting Clube de Portugal interessou-se pelos jogadores e contratou-os, em 1949. Seria o volte-face na relação. Embarcaram juntos, numa viagem que demorou 30 dias, “fazíamos preparação física no «deck» […] eramos companheiros e sentíamo-nos unidos pela primeira vez”[4]. Em tantos anos de rivalidade tiveram, finalmente, a oportunidade de se conhecerem realmente. Passaram a ser inseparáveis, nos primeiros tempos em Lisboa chegaram a partilhar casa, e daí ficou a amizade e a estima um pelo outro.

Quando Juca faleceu, a 11 de outubro de 2007, Mário Wilson relembrou o rival que se tornou amigo “um gentleman[5].

Fontes

Publicações

Almeida, Pedro Freitas de Sá, 2018. Futebol, raça e nação em Portugal, Coimbra
A Bola, n.º 4436 (31 de maio de 1975), p. 9
A Bola, n.º 4523 (22 de dezembro de 1975), p. 7
A Bola, n.º 4524 (27 de dezembro de 1975), p. 4, 8
O Benfica, n.º 1731 (27 de dezembro de 1975), p. 8

Textos em suporte digital

“Guerras de treinadores que marcaram o futebol português”, Diário de Notícias – https://www.dn.pt/desporto/guerras-de-treinadores-que-marcaram-o-futebol-portugues-9032810.html, consultado a 2 de fevereiro de 2021
“O adeus do Velho Capitão do futebol e da luta anti-regime”, Diário de Notícias – https://www.dn.pt/desporto/o-adeus-do-velho-capitao-do-futebol-e-da-luta-anti-regime-5422961.html, consultado a 2 de fevereiro de 2021
“Juca, o “cabecinha de ouro” era um gentleman do futebol”, Público – https://www.publico.pt/2007/10/13/jornal/juca-o-cabecinha-de-ouro–era-um-gentleman-do-futebol-233425, consultado a 3 de fevereiro de 2021